sábado, 24 de julho de 2010

O Poder da Validação - por Stephen Kanitz

Todo mundo é inseguro, sem exceção. Os super-confiantes simplesmente disfarçam melhor.
Não escapam pais, professores, chefes nem colegas de trabalho.

Afinal, ninguém é de ferro. Paulo Autran treme nas bases nos primeiros minutos de cada apresentação, mesmo que a peça já tenha sido encenada 500 vezes. Só depois da primeira risada, da primeira reação do público, é que o ator relaxa e parte tranqüilo para o resto do espetáculo. Eu, para ser absolutamente sincero, fico inseguro a cada artigo que escrevo e corro desesperado para ver os primeiros e-mails que chegam.

Insegurança é o problema humano número 1. O mundo seria muito menos neurótico, louco e agitado se fôssemos todos um pouco menos inseguros.

Trabalharíamos menos, curtiríamos mais a vida, levaríamos a vida mais na esportiva.

Mas como reduzir essa insegurança?

Alguns acreditam que estudando mais, ganhando mais, trabalhando mais resolveriam o problema. Ledo engano, por uma simples razão: segurança não depende da gente, depende dos outros. Está totalmente fora de nosso controle. Por isso segurança nunca é conquistada definitivamente, ela é sempre temporária, efêmera.

Segurança depende de um processo que chamo de "validação", embora para os estatísticos o significado seja outro. Validação estatística significa certificar-se de que um dado ou informação é verdadeiro, mas eu uso esse termo para seres humanos. Validar alguém seria confirmar que essa pessoa “existe”, que ela é real, verdadeira, que ela tem valor.

Todos nós precisamos ser validados pelos outros, constantemente. Alguém tem de dizer que você é bonito ou bonita, por mais bonito ou bonita que você seja. O autoconhecimento, tão decantado por filósofos, não resolve o problema. Ninguém pode auto validar-se, por definição. Você sempre será um ninguém, a não ser que outros o validem como alguém.

Validar o outro significa confirmá-lo, como dizer: "Você tem significado para mim". Validar é o que um namorado ou namorada faz quando lhe diz: "Gosto de você pelo que você é". Quem cunhou a frase "Por trás de um grande homem existe uma grande mulher" (e vice-versa) provavelmente estava pensando nesse poder de validação que só uma companheira amorosa e presente no dia-a-dia poderá dar.

Um simples olhar, um sorriso, um singelo elogio são suficientes para você validar todo mundo. Estamos tão preocupados com a própria insegurança que não temos tempo para sair validando os outros. Estamos tão preocupados em mostrar que somos o "máximo" que esquecemos de dizer a nossos amigos, filhos e cônjuges que o "máximo" são eles. Puxamos o saco de quem não gostamos, esquecemos de validar aqueles que admiramos.

Por falta de validação, criamos um mundo consumista, onde se valoriza o ter e não o ser. Por falta de validação, criamos um mundo onde todos querem mostrar-se ou dominar os outros em busca de poder.

Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente são, e não pelo que gostaríamos que fossem. Mas, justamente graças à validação, elas começarão a acreditar em si mesmas e crescerão para ser o que queremos.

Se quisermos tornar o mundo menos inseguro e melhor, precisaremos treinar e exercitar uma nova competência: validar alguém todo dia. Um elogio certo, um sorriso, os parabéns na hora certa, uma salva de palmas, um beijo, um dedão para cima, um "valeu, cara, valeu".

Você já validou alguém hoje? Então comece já, por mais inseguro que você esteja.

domingo, 9 de maio de 2010

O Poder dos "M's" - Reflexão para o 1º ANO Ensino Medio - (por Elian Alabi Lucci)


O Poder dos "M's"
 Elian Alabi Lucci

(Notas de conferência para texto originalmente destinado ao livro "Globalização e o poder dos M's", em co-autoria com o saudoso mestre Milton Santos)

Neste estudo, trataremos resumidamente da Globalização e dos poderes que mandam no mundo com o advento da quarta fase desse processo, a partir dos anos 1990. A partir daí, o mundo passa a se estruturar em função de poderes que, em sua quase totalidade, deixam-se representar pela letra "m".

O primeiro M é o Mercado.
Entende-se por mercado todas as relações de compra e venda, seja ela entre pessoas, instituições ou países. O comércio internacional hoje é uma das atividades mais importantes de toda a história da humanidade.
Um exemplo disto é uma placa que se encontrava na entrada de um grande depósito em Portugal e na qual constava "Se você não sabe o que quer, entre que nós temos". Com esse exemplo conseguimos enxergar que existe uma grande demanda criada pelo mercado. O mercado através de outros emes - que serão abordados a seguir - sabe impor as novas condições de vida à sociedade, moldando-a conforme sua oferta.

O segundo grande M é de Multinacionais;
Que a partir da década de 1960, começam a mandar no planeta. Representam as empresas Multinacionais ou transnacionais que desenvolvem seus produtos todos voltados para o mercado internacional.
Essas empresas que eram em 1960 aproximadamente 3.000 (três mil) chegam ao final dos anos1990 com um número estrondoso de 60.000 (sessenta mil). São essas empresas que comandam todo o processo econômico global a partir, entre outras coisas, da aplicação da relação custo-benefício. Com o processo de desterritorialização graças às três revoluções que sustentam a globalização (Meio de Transportes, Meios de Comunicação e Revolução Tecnológica) as fronteiras caem e a soberania dos países vê-se ameaçada.
O Poder econômico das multinacionais passa por cima das fronteiras e do poder dos governantes abalando assim a própria base jurídica do Estado que é o território.
 Para que as multinacionais conseguissem chegar ao poder de mando que elas têm hoje em toda a sociedade global elas dependem de vários ajudantes de ordens que começam também pela letra M.


O primeiro desses poderes ou ajudantes de ordem é a Mídia.
Esta que era até bem pouco considerada o quarto poder hoje praticamente se constitui como um segundo poder. Podemos até dizer, em linguagem futebolística, que é ela que faz o meio de campo para a vitória das transnacionais.
Pode-se ainda atribuir à mídia a denominação "braço armado" do processo de globalização, tal a guerra que ela provoca bombardeando nossas consciências defendendo que sempre precisamos de algo mais para nos inserir neste mundo que não é mais nem capitalista, nem socialista, mas materialista e hedonista.
A mídia criou um novo tipo de sociedade que um grande pensador francês, Guy Debord, denomina "A Sociedade do Espetáculo". As eleições norte-americanas se transformam num verdadeiro espetáculo. A Copa do Mundo e as Olimpíadas se tornam também na mão das multinacionais e da mídia em grandes espetáculos que sugerem um determinado modo de vida e a compra dos mais diversos tipos de produtos que preenchem a cada dia novas necessidades que este M poderoso, da mídia, cria.

Depois do papel exercido pela mídia um outro M poderoso que com ela cria o grande complô representado pela palavra compra é o Marketing. A partir de 1960, graças a um homem de marketing, Teodore Levit, o marketing ganha uma força monumental e cujo principal objetivo é "criar necessidades", ou melhor, ainda, vender aquilo que não queremos comprar. A própria atual fase do processo de globalização começa com as considerações deste homem de marketing.
Esta quarta fase da globalização foi gestada a partir dos anos 1960 e vai se consolidar trinta anos depois nos anos 1990. Ela traz consigo uma nova sociedade denominada de "Sociedade da Informação", do Conhecimento ou Pós-industrial. Essa sociedade não e mais regida pelo sistema de produção Fordista-Taylorista, mas pelo sistema Toyotista.

O quarto M que alimenta a cadeia do consumo, que faz a alegria das multinacionais é a "marca". Tudo hoje, no mundo das compras, é regido pelas marcas, desde as fraldas de um recém nascido até o desespero dos mais velhos em consumirem vitaminas e suplementos produzidos pelas grandes farmacêuticas multinacionais com o intuito de estender a vida humana no planeta.
Na Itália encontram-se mais de mil grandes agências de publicidade que ganham fortunas para transformar as vendas de produtos de caráter local e regional em grandes produtos ou grifes internacionais. Esse processo de transformação recebe o nome de "Naming", que começa quase sempre pela alteração do nome do produto que é vendido em caráter local para um nome mais aceitável em caráter global.
Com a globalização, o "Logo" das grandes empresas multinacionais vale mais do que todo seu ativo fixo, Como por exemplo a Coca-Cola, Nike, Xerox entre outras que tem seu logotipo mundialmente conhecido e valorizado. Uma criança de apenas 3 ou 4 anos de idade hoje já identifica os produtos do Mc Donald`s. Bastando para isso apenas ver o logotipo desta rede mundial de fast-food que pelo marketing acaba despertando a sua vontade e necessidade de consumir tais produtos.

Outro M é a moda, que vem como conseqüência da marca que são trabalhadas insistentemente pelos meios de comunicação que usam para isso grandes nomes da televisão, cinema e do esporte como referências do consumo de determinados produtos e marcas.

Um M mais recente e que ganha proporções, sobretudo entre os jovens, é o Messenger. Ele é um meio de comunicação e pode ser entendido como uma grande revolução nos meios de comunicação.
Alem de aproximar o mundo com conversas é onde os jovens têm desenvolvido a maior parte de seus diálogos e relações sejam elas benéficas ou maléficas como amizades ou tormentos nas vidas alheias (Bullyng, Fraudes, Crime Virtual, que normalmente vem junto com o crime organizado, entre outros).
No Japão já há inclusive uma vultosa literatura de romances para celular. O Messenger é um meio de comunicação que tem sido muito utilizado para redução de custos, de tempo e saliva. Apesar de todos esses benefícios, tem trazido prejuízos à gramática dos que o utilizam com a criação de abreviações irregulares e palavras inexistentes que empobrecem a gramática e a língua portuguesa em si.

No campo cultural, mais precisamente da música, que é uma das formas de entretenimento mais disseminada na sociedade global, também temos um M regente, este é o Mp3.
O mp3, como formato de musica digital, revolucionou o mercado de players dando espaço a novas marcas e produtos que também foram influenciados pelo marketing e moda. Também revolucionou a venda de músicas, quando há alguns anos atrás se comprava CDs hoje se compram Mp3 em lojas virtuais.
Aí está um exemplo marcante do que se produz na sociedade Pós-Industrial e que muda o conceito de trabalho, possibilitando oportunidades ao invés de uma busca por emprego fixo que era forma clássica de trabalho na sociedade industrial. Um exemplo disso é o que ocorre hoje na sociedade norte-americana, em que, uma pessoa que vive até os 60 anos, muda em média oito vezes de emprego ou de ocupação.

A ERA DO ACESSO

Diante do que acabamos de observar, o consagrado autor Jeremy Rifkin, traz o conceito de uma nova era a qual denomina de "Era do Acesso". Esta era é marcada pela flexibilidade, descartabilidade e facilidade de substituição de bens, produtos e serviços como nunca se viu em épocas anteriores. Uma pessoa que se casa e monta uma residência com todos seus utensílios e equipamentos tais como máquina de lavar, geladeira, forno de microondas, televisão, computador, etc., ao voltar da lua de mel perde grande parte do valor investido em todos estes produtos, pois já surgiram outros com novos designs e novas funções.
Uma saída para esta situação fruto da sociedade Pós-Industrial em que vivemos, passa pelo Leasing (locação) e não a compra efetiva dos produtos mais suscetíveis a mudanças visuais preenchidas pela moda.
Um exemplo de facilidade de acesso são os restaurantes "fast-food", quando se sente fome, simplesmente se procura um desses restaurantes e em alguns minutos está pronta a comida de sua preferência.
Hoje não são só hambúrgueres ou sanduíches fast-food, encontramos com o encurtamento de distâncias as mais diferenciadas culinárias de todos os países reunidos as vezes em uma só praça de alimentação, são as mais populares as comidas, italianas, árabes, japonesas, chinesas e, é claro, a americana.
O principal produto desta era é a informação.
Há alguns anos para se conseguir informações históricas era necessária uma enciclopédia, como a Barsa, a Delta, a Mirador e outras.
Hoje em dia bastam alguns cliques para se encontrar a mais diversificada informação de diferentes fontes e pontos de vista. Paginas de internet como o Google ou a Wikipedia assumem esse espaço cada vez mais. Ainda nesse aspecto de internet vemos como é fácil o acesso a perfis de pessoas de todo o mundo através de sites de relacionamentos, e comunidades dos mais diversificados interesses facilitando ainda mais o acesso a tudo que é de seu interesse, filmes, livros, músicas, mudando as relações de compra e venda.
Nessa nova era as pessoas têm mudado os seus hábitos. Para fugir do caos que tem se tornado as grandes cidades; com a facilidade na compra de um carro o cidadão começa a evitar sair para realizar suas tarefas mais comuns, como compras de mercado, tarefas bancárias e até mesmo a locação de um filme, conseguindo realizar tudo isso por meio da internet. Diante dessas facilidades, aí esta uma grande causa de desemprego, até o ponto que já se pode imaginar um mundo sem empregos: como nos empregos clássicos tão conhecidos da sociedade industrial, assim foi visto na revolução industrial, quando homens eram trocados por máquinas, e hoje... pelo virtual.

sábado, 17 de abril de 2010

Evolução da Geografia - Por "Novos Caminhos" (Adapt: Wesentini)

     O espaço mundial de hoje é descontínuo, limitado pela economia ou pela política (aliás inseparáveis), móvel e difícil de ser cartografado ou captado por meras descrições. Além disso, ele — o espaço construído, social, fruto da humanização da natureza, locus de lutas e conflitos — não é mais um elemento inerte, a ser tão somente apropriado pelo homem pela expansão econômica ou a ser visitado pelos turistas, e sim algo necessário ao movimento do capital e/ou ao controle social: é o espaço produzido, planejado, transformado em mercadoria e constantemente reconstruído. 

     E a geografia moderna, tanto a acadêmica (de pesquisa) como a dos professores, não consegue mais explicar satisfatoriamente esse espaço, e isso nem mesmo como inculcação ideológica para os alunos de nível elementar e médio. Daí a "crise" dessa geografia – isto é, a crise da geografia tradicional –, e as alternativas que surgem há alguns anos (ou décadas, conforme o caso) e que a substituem. Não se trata de "modas", como querem alguns que se recusam a ler obras novas e a tentar renovar suas lições, e sim de uma necessidade real, de ou procurar acompanhar as metamorfoses do mundo ou correr o risco de findar. Ou, nas palavras do geógrafo italiano Massimo Quaini:

Estudantes não tiveram, como na Estatal de Milão, a possibilidade de motivar e, sobretudo, de fazer valer sua contestação, demonstraram de modo ainda mais decisivo terem as idéias claras: usufruindo de uma parcial liberdade curricular, desertaram em massa dos cursos de geografia".  
Quaini, Marxismo e geografia (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979), p.12.

Nas conclusões de um outro autor, temos que:
 

“Pode-se dizer que a crise da geografia escolar resume-se essencialmente à crise de sua finalidade. Ensinamento de função ideológica, ela vê sua eficácia contestada por discursos mais "modernos" (economia, sociologia, etc). Marginalizada no momento de adaptação da escola às necessidades profissionais, a geografia está minada pela sua aparente incapacidade de dar conta das lutas de que o espaço está pleno.” 
Jean-Michel Brabant, "Crise de la géographie", em Hérodote, n. 2 (Paris, F. Maspero, 1976), p. 102.

     E quais as alternativas, ou novas "geografias", que se constroem e substituem a moderna e que oferecem opções ao professor do ensino básico? Deixando de lado aqueles que fingem ignorar a "crise da geografia" e continuam a praticar o mesmo discurso de Vidal de La Blache ou Aroldo de Azevedo, e que só conseguem provocar aquele tipo de reação descrita por Quaini, podemos perceber que existem três caminhos principais que são trilhados pelos que renovam essa formação discursiva:
a) a especialização num ramo (ex.: climatologia, geomorfologia, etc), que acaba por tornar-se completamente autônomo;
b) a geografia utilitária ou de planejamentos (seja a new geography, aquela voltada para o aménagement du territoire ou qualquer outra forma de geografia tecnocrática); e 
c) a geografia crítica ou radical. 

O primeiro caminho, como é evidente, não é satisfatório para o professor, mas apenas para o especialista que vai trabalhar nesse ramo que se torna um compartimento sem ligações com a totalidade estudada pela geografia (a sociedade em sua espacialização e a segunda natureza). Além disso, ele acaba conduzindo ao fim da geografia e não à sua reconstrução em outras bases. 

O segundo caminho também não foi construído para a escola, e sim para grandes empresas (públicas ou particulares), para os planos de reordenação espacial visando a reprodução do capital. Trata-se aí de uma geografia servil ao poder e que no ensino só vai resultar em coisas como o texto sobre geografia agrária do Projeto Brasileiro para o Ensino da Geografia, onde se pede ao educando para que ele se coloque como o proprietário de uma fazenda e raciocine em termos de custos (mão-de-obra, insumos, etc.) para aferir a produtividade de sua terra. Mas, enfim, para quem concebe a realidade social sob a ótica da harmonia, do princípio lógico da identidade, essa pode ser a geografia adequada para a "comunidade" onde leciona. 

E, finalmente, o terceiro caminho parece-nos o mais profícuo, tanto para a crítica à geografia moderna e sua reconstrução como para a renovação do ensino da geografia. Trata-se de uma geografia que concebe o espaço geográfico como espaço social, construído, pleno de lutas e conflitos sociais. Ele critica a geografia moderna no sentido dialético do termo crítica: superação com compreensão do papel histórico daquilo que é criticado.

Aprendendo a Pensar - Stephen Kanitz


“Aprendi nas aulas poucas coisas que uso até hoje. Teriam sido mais úteis aulas de culinária, nutrição e primeiros socorros do que latim, trigonometria e teoria dos conjuntos"

 
      A maioria das aulas que tive foi expositiva. Um professor, normalmente mal pago e por isso mal-humorado, falava horas a fio, andando para lá e para cá. Parecia mais preocupado em lembrar a ordem exata de suas idéias do que em observar se estávamos entendendo o assunto ou não. 

     Ensinavam as capitais do mundo, o nome dos ossos, dos elementos químicos, como calcular o ângulo de um triângulo e muitas outras informações que nunca usei na vida. Nossa obrigação era anotar o que o professor dizia e na prova final tínhamos de repetir o que havia sido dito.

     A prova final de uma escola brasileira perguntava recentemente se o país ao norte do Uzbequistão era o Cazaquistão ou o Tadjiquistão. Perguntava também o número de prótons do ferro. E ai de quem não soubesse todos os afluentes do Amazonas. Aprendi poucas coisas que uso até hoje. Teriam sido mais úteis aulas de culinária, nutrição e primeiros socorros do que latim, trigonometria e teoria dos conjuntos.

     Curiosamente não ensinamos nossos jovens a pensar. Gastamos horas e horas ensinando como os outros pensam ou como os outros solucionaram os problemas de sua época, mas não ensinamos nossos filhos a resolver os próprios problemas. 

     Ensinamos como Keynes, Kaldor e Kalecki, economistas já falecidos, acharam soluções para um mundo sem computador nem internet. De tanto ensinar como os outros pensavam, quando aparece um problema novo no Brasil buscamos respostas antigas criadas no exterior. Nossos economistas implantaram no Brasil uma teoria americana de "inflation targeting", como se os americanos fossem os grandes especialistas em inflação, e não nós, com os quarenta anos de experiência que temos. Deu no que está aí. 

     De tanto estudar o que intelectuais estrangeiros pensam, não aprendemos a pensar. Pior, não acreditamos nos poucos brasileiros que pensam e pesquisam a realidade brasileira nem os ouvimos. Especialmente se eles ainda estiverem vivos. É sandice acreditar que intelectuais já mortos, que pensaram e resolveram os problemas de sua época, solucionarão problemas de hoje, que nem sequer imaginaram. Raramente ensinamos os nossos filhos a resolver problemas, a não ser algumas questões de matemática, que normalmente devem ser respondidas exatamente da forma e na seqüência que o professor quer.

     Matemática, estatística, exposição de idéias e português obviamente são conhecimentos necessários, mas eu classificaria essas matérias como ferramentas para a solução de problemas, ferramentas que ajudam a pensar. Ou seja, elas são um meio, e não o objetivo do ensino. Considerar que o aluno está formado, simplesmente por ele ter sido capaz de repetir os feitos intelectuais das velhas gerações, é fugir da realidade.

     Num mundo em que se fala de "mudanças constantes", em que "nada será o mesmo", em que o volume de informações "dobra a cada dezoito meses", fica óbvio que ensinar fatos e teorias do passado se torna inútil e até contraproducente. No dia em que os alunos se formarem, mais de dois terços do que aprenderam estarão obsoletos. Sempre teremos problemas novos pela frente. Como iremos enfrentá-los depois de formados? Isso ninguém ensina. Existem dezenas de cursos revolucionários que ensinam a pensar, mas que poucas escolas estão utilizando. São cursos que analisam problemas, incentivam a observação de dados originais e a discussão de alternativas, mas são poucas as escolas ou os professores no Brasil treinados nesse método do estudo de caso. 

Talvez por isso o Brasil não resolva seus inúmeros problemas. Talvez por isso estejamos acumulando problema após problema sem conseguir achar uma solução. Na próxima vez em que seu professor começar a andar de um lado para o outro, pense no que você está perdendo. Poderia estar aprendendo a pensar. 
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

segunda-feira, 1 de março de 2010

01 de Março - Aniversário da cidade do Rio de Janeiro

Um lembrete de aniversário da cidade mais linda do Brasil! é cheia de problemas, mas ainda sim, é a mais charmosa!
Parabéns a nós cariocas!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Dia do Amigo - Márcio Bezerra

Neste dia tão importante, não poderia deixar de registrar aqui meu desejo de muita prosperidade e expressar minha gratidão por ter um número tão grande amigos que consegui obter durante estes cansativos e tão longos anos.

Vitórias e Derrotas. Percalços, obstáculos, alegrias, tristezas, conversa boa, conversa difícil, consolação, apoio... enfim, cada momento da nossa existência é e será sempre permeado por essas pessoas que Deus pôs no nosso caminho para poder chamá-los de irmãos do coração!!!

Sucesso e Força Sempre, pra todos vcs meus amigos!!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Feira Cultural CE5J – Por Márcio Bezerra.

A feira cultural do Centro educacional 5 de julho foi realizado dia 20 de Junho de 2008, com início as 9 h da manhã.

A banda do Colégio Dom Otom participou da cerimônia de abertura, exibindo todo o seu talento na execução dos temas musicais inerentes a cerimônia.

O tema central deste evento foi: VALORES. A idéia era conduzir os alunos a resgatar elementos necessários e fundamentais para a convivência harmoniosa em uma sociedade. Atualmente, existe certa desconfiança na degradação (ou, na visão dos pessimistas, a destruição!) desses princípios que caracterizam o convívio pleno com o “diferente”; elemento visível e concreto que mantém a sociedade num eterno conflito, mas que é alicerce pra inovar e promover a interação entre os seus membros.

Princípios como: compaixão, respeito, coragem, amor, misericórdia, polidez, companheirismo, cooperação, atitude, superação, ética, entre outros, foram os sub-temas tratados.

Um dos destaques foi a apresentação do corpo de bombeiros, (um grupamento cujo sinônimo é coragem) com uma palestra sobre dicas pra evitar acidentes em casa.

Quem quiser ver o vídeos de demonstração, estão aí os links:

http://br.youtube.com/watch?v=aGBZdhaXTmM
http://br.youtube.com/watch?v=woctwufhChA

Misericórdia

O tema tratado por nosso grupo foi à misericórdia, entendido como atitude daquele que tem preocupação pela situação em que vive o seu próximo. Os alunos de parte da 101 MA se esforçaram em produzir um trabalho que atendeu as expectativas do evento.

O painel também foi alvo de elogios inclusive pela coordenação do evento.

Basicamente, devemos conceder menções honrosas a praticamente todos os trabalhos, uma vez que houve empenho e dedicação de todas as turmas da escola em apresentar, sobre os mais diversos meios, a importância desses valores para a existência de uma sociedade plural, democrática e participativa. Anseio que todos nós buscamos para um mundo ser realmente bom pra todos.

Aos alunos, funcionários, inspetores, professores e coordenação da escola e principalmente do evento – Professoras Suzana C. e Andréia Q. – Parabéns pelos excelentes resultados alcançados.

Mais uma vez, mesmo com pecados na estrutura geral, esta feira foi um sucesso!

OBS: aqui a "coleção de brindes e folders" relativos a execução da feira cultural que juntei durante o evento. Até pulseira do rubro-negro carioca (flamengo) se juntou nessa festa!

sábado, 28 de junho de 2008

A Farra da Legalização da Grilagem - Por Ariovaldo Umbelino

Por Ariovaldo Umbelino – 07/04/2008

A grilagem das terras públicas na Amazônia continua nos noticiários. Agora, trata-se da Medida Provisória 422, que dispensa de licitação a venda de terras públicas do INCRA até 1.500 hectares. E, por trás dela, está a estratégia de ação do agrobanditismo em sua sanha de se apropriar das terras públicas griladas daquela região.

Em outro artigo neste site, mostrei que a grilagem das terras públicas da Amazônia sempre veio alimentada pelas políticas públicas dos diferentes governos nos últimos cinqüenta anos. Mas, como a legislação constitucional impede que isso se faça, o caminho passou a ser tentar conseguir através de subterfúgios jurídicos sua legalização. Como a Constituição de 1988 manda compatibilizar a destinação das terras públicas com o plano nacional de reforma agrária, uma nova estratégia passou a ser montada para continuar favorecendo os grileiros do agronegócio.

Uma banda podre dos funcionários do INCRA, particularmente os que "cuidam" do cadastro, passaram a "oferecer" e "reservar" as terras públicas do INCRA para os grileiros e indicar o caminho "legal" para obtê-las. Portanto, quem está realizando esta "grilagem legalizada" é uma parte dos próprios funcionários corruptos do INCRA e dos órgãos estaduais de terra. A denúncia destes fatos já levou a Polícia Federal a fazer a Operação Faroeste no Pará e o Ministério Público Federal a mover ação para cancelar os "assentamentos da reforma agrária laranja" da regional do INCRA de Santarém-PA. O motivo é sempre o mesmo: a tentativa de "oficializar" a grilagem das terras públicas.

Em 2003, o INCRA possuía na Amazônia Legal mais de 60 milhões hectares, assim distribuídas pelos Estados:

► Amazonas, 20,9 milhões de hectares;

► Pará, 17,9 milhões;

► Roraima, 9,2 milhões;

► Acre, 6,2 milhões;

► Mato Grosso, 5,7 milhões;

► Rondônia, 4,9 milhões;

► Maranhão, 1,7 milhões;

► Tocantins, 1 milhão de hectares.

Entretanto, os grileiros do agrobanditismo "cercaram e se apropriaram privadamente" de tudo, pois os funcionários corruptos do INCRA "venderam" para eles ilegalmente todo este patrimônio público. Agora estão junto como o governo Lula, propondo "soluções jurídicas" para legalizar o crime cometido.

A história é a seguinte:

No final do ano de 2005, conseguiram através do artigo 118 da Lei nº. 11.196 de 21/11/2005 (a chamada "Medida Provisória do bem") alterar a lei de licitações públicas (Lei nº. 8.666, de 21/06/1993), conseguindo a permissão para regularizar, através da venda, aqueles que tinham grilado as terras públicas do INCRA na Amazônia Legal com área de até 500 hectares. Não custa lembrar que o artigo 191 da Constituição de 1988 autoriza a posse de apenas até 50 hectares, quando a terra é devoluta, porque as terras públicas não são passíveis de usucapião (artigo 200 do Decreto-Lei 9760 05/09/1946, § 3º do artigo 183 da Constituição de 1988).

Em 17/05/2006, o INCRA baixou a Instrução Normativa nº. 32, que fixou os procedimentos legais para que este crime da grilagem das terras públicas até 500 hectares pudesse começar a ser legalizado. Era o início da farra da legalização da grilagem.

Mas a banda podre dos funcionários do INCRA não se deu por satisfeita, e, afrontando a Constituição, que manda destinar as terras públicas para a reforma agrária, baixou a Instrução Normativa nº. 41, em 11 de junho de 2007 (publicada no DOU em 18/06/2007), estabelecendo "critérios e procedimentos administrativos referentes à alienação de terras públicas em áreas acima de 500 hectares limitadas a 15 (quinze) módulos fiscais mediante concorrência pública".

E a sordidez destes dilapidadores do patrimônio público não tem limite. Primeiro, com auxílio do agrobanditismo paraense, conseguiram que o deputado Asdrúbal Bentes (PMDB) apresentasse em 24/10/2007 um projeto de lei que ampliava para até 15 módulos fiscais (mais ou menos 1.500 hectares) a dispensa de licitação e conseqüente autorização para venda aos grileiros das terras do INCRA.

Agora, a desfaçatez do governo do PT parece que não tem mais limite. Lula e Cassel, descaradamente, em nome da reivindicação da base aliada, transformaram (plagiaram) o projeto de lei do deputado Asdrúbal Bentes na Medida Provisória nº. 422. Assim, esta MP que já está em vigor, altera novamente a Lei nº. 8.666, permitindo a dispensa de licitação para alienar os imóveis públicos da União até 15 módulos fiscais.

Isto quer dizer que, como 39% da área dos municípios da Amazônia Legal têm módulos fiscais de 100 hectares, esta dispensa de licitação atingirá áreas griladas até 1.500 hectares. Estes municípios estão principalmente nos estados do Amazonas, Acre, Roraima, Mato Grosso e Pará, todos repletos de exemplos da grilagem de terras do INCRA. Noutros 38% da área dos municípios que têm módulos entre 75 e 90 hectares, a dispensa de licitação atingirá áreas griladas entre 1.125 e 1.350 hectares dos estados anteriores e do Tocantins e Maranhão. Ou seja, as terras griladas que serão regularizadas têm área acima de mil hectares e é o próprio INCRA que reconhece o crime lesa pátria: "assim, entre 70 e 80% das posses de até 15 módulos fiscais estará em torno de 1000 ha, ou menos", em "A MP 422 legaliza e protege a floresta" (http://www.incra.gov.br).

A audácia do diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do INCRA, Roberto Kiel, é de uma adesão total ao agrobanditismo: "agora eles poderão comprar do governo federal as terras que já ocupavam há anos e não vão precisar concorrer com outros interessados", em "Assinada MP para regularização fundiária da Amazônia" (http://www.incra.gov.br).

Outra parte desta engenhosa operação para legalização da grilagem de terras do INCRA na Amazônia Legal foi o aproveitamento do aumento do desmatamento naquela região para fazer o recadastramento dos imóveis. Ele vai permitir que os grileiros que ainda não tinham cadastrado as terras públicas que grilaram até dezembro de 2004 pudessem agora fazê-lo e assim se habilitarem para "comprar" as terras griladas sem licitação. Aliás, a notícia no site do INCRA sobre o recadastramento já, de forma absurda, reconhece os grileiros como posseiros: "Os donos ou posseiros de áreas maiores que quatro módulos fiscais [...] terão que levar ao Incra, de 3 de março a 2 de abril, documentos que comprovem a titularidade ou posse pacífica da terra, plantas e memoriais descritivos com a correta localização geográfica dos imóveis rurais" (http://www.incra.gov.br).

Dessa forma, é preciso deixar claro que as verdadeiras posses das famílias camponesas ribeirinhas ou não na Amazônia não ocupam mais de 100 hectares; portanto, estes atos do INCRA são para regularizarem as grilagens das terras públicas do próprio INCRA, que seus funcionários corruptos "venderam" para ao agrobanditismo.

Vale lembrar que apenas duas vezes na história do Brasil a grande posse foi legalizada, na Lei de Terra de 1850 e na ditadura militar entre 1964/1984.

Por isso volto a repetir, a MP 422 é uma afronta aos princípios constitucionais e ao patrimônio público: o governo Lula está fazendo o que nenhum governo, depois dos militares, fez, "vendendo" ao agronegócio/banditismo mais de 60 milhões de hectares de terras públicas do INCRA na Amazônia que deveriam ser reservadas à REFORMA AGRÁRIA, à demarcação de terras indígenas e/ou quilombolas e à criação de unidades de conservação ambiental.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O Valor da Misericórdia - Por Anieh Grancihurt

Seria talvez uma virtude dependendo de como é empregada. Misericórdia notoriamente não vem só de divindades, pois está ecliticamente ligado a outras possíveis virtudes.

A Misericórdia está diretamente associada com o termo cooperar. Antes de ter misericórdia é de suma destreza apresentar respeito ao próximo. Como tudo que se apresenta a misericórdia é possuidora de duas faces: a correta e a errada, como o bem e o mal.

De certo modo é a hipocrisia de ter piedade e diminuir o ser humano a nada. O que deve importar é a essência que permanecerá por todo o sempre!

Se errar, não julgue, pois estará faltando com o respeito por si.

Estender a mão, um exemplo clássico de correta misericórdia. Este sim seria o momento exato. Sem virtudes não há vida, há sobrevida.

Misericórdia resume-se talvez em valorizar o ser humano acima de qualquer coisa. As virtudes nos completam e se podemos ser completos, o porquê de sermos ocas e vazias.

Virtudes não são apenas palavras. Não devem parecer. Pois palavras como estas são apenas palavras quando não acompanhadas de ação.

O verdadeiro sábio preocupa-se primordialmente em enriquecer o espírito e posteriormente a matéria, porém, apenas é suficiente.

Misericórdia deve impregnada à alma, por si ou não. Sonhos existem para realizar um ser..

O mundo clama por pessoas virtuosas, se queres perfeição, aperfeiçoe-se.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Cemitério na Cidade do RJ - A Construção do Território do Sagrado


Sabe-se que no Brasil os sepultamentos durante o período colonial e parte do Império eram realizados ad Sanctus, ou seja, nas igrejas; a idéia da “boa morte” ainda estava vinculada ao momento da morte da pessoa e o seu local de enterramento.

Neste sentido, dentro de uma mentalidade ainda marcada pela época medieval, estar enterrado em uma igreja era estar perto de Deus, o que significava maior possibilidade de uma vida feliz no além. Assim, as igrejas no Brasil recebiam os corpos de seus fiéis desde que tivessem sido, na vida secular, pessoas de certa posição social e que os seus pudessem arcar com as despesas do sepultamento. Desta feita, quanto mais alta a posição social do defunto, maior sua proximidade com o templo, quando não do próprio altar.

Como disse Cruls:

“até então para os mortos de categoria havia sempre uma catacumba no claustro dos conventos ou uma campa no chão dos templos.”

Tudo era organizado para que este momento da morte transcorresse dentro da mais perfeita ordem, a hora da morte era administrada pelo moribundo de forma calma e serena. Os cuidados já haviam sido tomados quanto à distribuição dos bens, pois, através de testamentos, os cuidados eram providenciados a fim de que a vontade do defunto fosse respeitada. O modo do funeral, a mortalha com a qual deveria ser enterrado, o local e a igreja, tudo já havia sido atestado antes e só restava aos seus o cumprimento das ordens.

A vida rude na Colônia, tanto de colonos como de escravos, estava entregue nas mãos do serviço, praticamente voluntário, do hospital da Santa Casa da Misericórdia, que havia sido fundada em 24 Março de 1582, no Rio de Janeiro, pelo padre José de Anchieta.

Ao lado do hospital, em terreno contíguo, foi erguido um cemitério para o sepultamento das pessoas que lá morriam, os injustiçados e escravos; o de Santo Antônio, que estava sob os cuidados dos Franciscanos, onde é hoje o Largo da Carioca, e que também sepultava escravos; “o dos pretos novos, no antigo Largo de Santa Rita, onde até 1825 houve um cruzeiro”; e o dos mulatos, que se situava no Campo do Rocio e depois Largo de São Domingos, já “desaparecido”. A estes dois últimos, Cruls chamou de “mais ou menos clandestinos”, uma vez que os seus corpos eram deixados “à flor da terra”.

O cemitério da Santa Casa chamou a atenção do reverendo Walsh, que visitou o Brasil em 1828, pela forma descuidada com que ali se praticavam os sepultamentos:

“O enterro é muito simples; faz-se uma cova profunda onde os corpos são colocados. Antes de serem enterrados aí, são depositados sobre um estrado numa casinha que fica no meio do cemitério, até que haja um número suficiente de corpos. Então é realizada a cerimônia fúnebre para todos eles, que são colocados nas covas sem caixões. Algumas vezes nus, mas normalmente envoltos em lona. São colocados de lado, geralmente com a cabeça virada para os pés do outro. Nunca estive neste lugar sem que houvesse quatro ou cinco corpos esperando para serem enterrados e ao sair sempre me encontrava com outros chegando.

Até então, nenhum destes cemitérios citados até aqui conhecia práticas de sepultamento organizadas em bases regulares. Em todos eles, o descuido com o sepultamento era uma marca permanente da maneira com a qual eram administrados. Só em 1839, por causada forma precária com que funcionava o da Santa Casa, foi aberto um cemitério na Praia de São Cristóvão, que também ficou a cargo da Santa Casa e era conhecido como Cemitério do Caju (mais tarde renomeado como Cemitério de São Francisco Xavier).

No caso de o morto ser um protestante europeu, o seu destino era o Cemitério dos Ingleses, com sua localização na Gamboa. Tal cemitério havia sido criado em função do “Tratado de Amizade”, datado de 1810, entre Portugal e Inglaterra. J. J. Reis ressalta que “o Cemitério dos Ingleses no Rio de Janeiro estava adaptado à concepção de uma necrópole longe da cidade”. O cemitério dos ingleses não se parecia em nada com o cemitério da Santa Casa. Era limpo, arborizado e à beira da Praia da Gamboa que, naquele tempo, margeava o campo santo.

É por isto que Maria Graham, que visitou o cemitério em 1832, observou admirada o referido campo santo:

Julgo um dos lugares mais deliciosos que jamais contemplei, dominando lindo panorama, em todas as direções. Inclina-se gradualmente para a estrada ao longo da praia, no ponto mais alto de um belo edifício... em frente a este edifício ficam varias pedras e urnas e os vãos monumentos que nós erguemos para relevar a nossa própria tristeza; entre estes e as estradas algumas árvores magníficas.

Com efeito, o contraste entre ambos era notório. Cemitérios católicos eram completamente diferentes dos cemitérios protestantes: a representação do lugar funerário para os protestantes consistia em uma visão mais serena, amenizada pela presença de árvores que, em certo sentido, conferiam ao local uma sensação de paz, a ponto de Graham afirmar que, “(...) se viesse a ser sepultada ali, os que viessem visitá-la não se sentiriam incomodados”.

Entretanto, os cemitérios católicos apresentavam um ambiente tumultuado, no qual corpos insepultos se misturavam à terra deixando uma sensação de desespero e desorganização. Por outro lado, os corpos sepultados pelos católicos ad Sanctus estavam, de certa forma, sempre junto aos vivos, que vez por outra rezavam por eles uma missa em sua memória.

Os protestantes, uma vez que não praticavam sepultamentos em igrejas, tinham o espaço distribuído mais uniformemente, sem “distinções” aparentes entre os defuntos. Já no catolicismo, a variedade de espaços funerários oferecidos pressupunha a própria diferenciação entre mortos. Uns sepultados sob a nave, estes nos adros, aqueles em conventos e uma grande maioria em cemitérios que deixavam os corpos à flor da terra.

Segundo Cláudia Rodrigues, houve um empobrecimento e um esvaziamento dos cortejos fúnebres a partir dos surtos epidêmicos e da conseqüente proibição dos enterros nas igrejas e cemitérios paroquiais (a partir de 1850 na cidade do RJ). Mostra ela ainda, a partir da análise do uso da roupa fúnebre, que ocorreu no mesmo período um declínio vertiginoso dos enterros com mortaIhas de santos. Um sinal, aliás, de que teria havido transformações importantes na devoção. Visto pelo ângulo dos funerais, os santos certamente perderam o prestígio como protetores dos viajantes para o Além.

O cemitério São João Batista – 1860-1870

Esta foto de Leuzinger, premiada na Exposição de Paris, foi tirada de uma chácara onde Darwin teria se hospedado e observado borboletas. Encontramos ai belas esculturas e obras de arte, encomendadas no passado a escultores famosos.

Aí se encontram os restos mortais de pessoas como Santos Dumont, Carmem Miranda, Afonso Penna, Luís Carlos Prestes, Clara Nunes, Ary Barroso, Cazuza, Tom Jobim e outros tantos políticos famosos, além é claro de muitos de nossos antepassados queridos.

O Cemitério São João Batista é de 1852, quando substituiu o de Pedro II, que existia junto ao hospício da praia, freqüentemente invadido pelas águas. A rua que passa à sua frente é o velho Caminho do Berquó (General Polidoro).

Nesta última foto, vemos o cemitério de Campo Grande - situado na avenida Cesário de Melo. Apesar de reformado, ainda apresenta os traços mais marcantes da mercantilização da morte e da apropriação destes espaços sagrados pela Santa Casa da Misericórdia. Apesar de importante, Ainda sim, é um tema pouco estudado pela geografia.